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Ouro · 30 de setembro de 2026 · 7 min de leitura

O ouro está caindo. Os bancos centrais ainda compram na baixa?

A China comprou 20 toneladas em agosto, a Polônia segue comprando e o Goldman acredita que a demanda oficial real é bem maior do que a declarada. Mesmo assim, o ouro caiu 9% em um mês. Veja o que os dados mostram.

Setembro foi um mês duro para o ouro. Na série diária do Yahoo Finance, o metal estava em US$ 4.219,80 a onça às 6h47 (ET) de 30 de setembro de 2026, com queda de 4,1% em uma semana e de 9,4% em um mês (Yahoo Finance). O relatório diário da USAGOLD apontou queda de 3,2% na segunda-feira, 28 de setembro, para US$ 4.149 (USAGOLD). Na terça, a Kitco informou alta de 1,36% do ouro à vista, para US$ 4.170,90, depois de um dado fraco de confiança do consumidor nos EUA (Kitco, 29/set). Com isso, o preço está cerca de um quarto abaixo do pico deste ano, perto de US$ 5.590–5.600. As fontes divergem um pouco sobre a máxima exata (24/7 Wall St., StoneX).

Daí vem a pergunta que os leitores não param de fazer: quando o ouro cai assim, os bancos centrais continuam comprando? E eles conseguem segurar o preço?

A resposta curta

Pelos dados oficiais mais recentes, sim, eles continuam comprando, com China e Polônia na frente. O Goldman Sachs ainda estima que o ritmo real é bem maior do que o informado. Só que as compras declaradas estão abaixo do ano passado, dois grandes detentores (Rússia e Turquia) são vendedores líquidos e ainda não existe dado oficial sobre setembro, o mês da queda. A demanda dos bancos centrais funciona como um amortecedor lento e estrutural. Não é um piso de mesa de operações que segura cada queda.

O que os números oficiais mostram

China: 22 meses seguidos, e acelerando

O Banco Popular da China (PBoC) informou compra de 20 toneladas em agosto, que o World Gold Council classificou como "a maior desde outubro de 2023". As reservas oficiais chegaram a 2.387 toneladas, depois de 22 meses consecutivos de alta. O ouro agora representa 9% das reservas internacionais chinesas, contra 8% em julho (World Gold Council, 14/set). A Kitco registrou o acréscimo de agosto como cerca de 649.400 onças (20,2 toneladas) e destacou compras mensais de dois dígitos desde maio de 2026 (Kitco, 8/set).

A demanda privada chinesa também está forte. Segundo a Kitco, em 22 de setembro as importações de ouro da China já passavam de 1.100 toneladas nos oito primeiros meses de 2026, mais do que em todo o ano de 2025 (Kitco, 22/set). Os ETFs de ouro chineses somaram 11 toneladas em agosto e chegaram a 293 toneladas (WGC).

O restante do setor oficial: quem compra e quem vende

As estatísticas mensais do WGC (publicadas em 3 de setembro, referentes a julho) mostram compras líquidas de 23 toneladas. China (20 t), Polônia (8 t) e o Banco Nacional Tcheco (2 t) lideraram as compras. A Rússia vendeu 6 t, e Turquia, Jordânia e Uzbequistão venderam 1 t cada. No acumulado do ano, as compras líquidas declaradas somavam cerca de 130 toneladas, contra cerca de 160 toneladas no mesmo período do ano passado (WGC, 3/set).

  • A Polônia comprou 90 t neste ano e tem 640 t, cerca de 28% das reservas. A meta declarada é de 700 t.
  • A Rússia vendeu 50 t no ano, e a Turquia vendeu 85 t.
  • O Banco da Coreia anunciou sua primeira alocação oficial em ouro em 13 anos, cerca de 2 t via ETFs lastreados em ouro.

A diferença entre o que é declarado e o que é estimado

Os números mensais só mostram o que os bancos centrais divulgam. O relatório trimestral Gold Demand Trends, do WGC, também estima as compras não declaradas. Por esse critério, as compras líquidas do setor oficial foram de 289 toneladas no 2º trimestre de 2026, alta de 62% em um ano (WGC Gold Demand Trends 2T 2026, 30/jul). É bem mais do que os totais mensais declarados no mesmo período.

O Goldman Sachs vai além. Em pesquisa noticiada pela Kitco em 23 de setembro, os analistas Lina Thomas e Daan Struyven estimaram que a China comprou cerca de 35 toneladas em julho, uns 75% a mais do que declarou. Eles chegaram a esse número rastreando o ouro que passa pelo mercado de balcão de Londres e segue para cofres domésticos e custodiantes. Estimaram as compras totais dos bancos centrais em 44 toneladas em julho e observaram que o ouro guardado pelo Banco da Inglaterra para bancos centrais estrangeiros subiu 63 toneladas naquele mês. A projeção de valor justo de US$ 4.900 até o fim de 2026 do Goldman "pressupõe demanda contínua e forte dos bancos centrais", junto com uma recuperação da demanda por ETFs (Kitco, 23/set).

São estimativas feitas a partir de fluxos de comércio e custódia. Não são compras confirmadas.

Por que isso não impede o preço de cair

Se os compradores oficiais são tão persistentes, por que o ouro caiu tanto? A resposta está na escala e no tempo. Bancos centrais compram toneladas por mês, e o mercado financeiro movimenta muito mais dinheiro a cada dia. O WGC informou volume médio diário de negociação de ouro de cerca de US$ 430 bilhões, somando todos os segmentos, em agosto (WGC, 9/set). Uma compra mensal de 20 toneladas vale cerca de US$ 2,7 bilhões a US$ 4.200 a onça (cálculo nosso). Ao longo de um ano isso pesa na oferta, mas é pouco perto do giro de um único dia.

O dinheiro mais rápido é que vem ditando o dia a dia. O 24/7 Wall St. chamou a queda de segunda-feira de "uma reprecificação puramente macro, do mercado de papel". Citou a probabilidade de alta de juros do Fed em outubro, que saltou para 70,3%, e o rendimento do Treasury de 10 anos em 5,24% (24/7 Wall St., 30/set). Depois de dados mais fracos de vagas de emprego e de confiança do consumidor nos EUA na terça, a USAGOLD informou que essa probabilidade caiu para cerca de 51%, contra cerca de 71% no dia anterior (USAGOLD, 30/set). Os investidores ocidentais em ETFs aplicaram um recorde de US$ 18 bilhões em agosto e levaram as reservas globais a 4.189 toneladas. Esse tipo de comprador pode sair rápido quando os juros sobem, e o próprio WGC atribuiu parte das entradas de agosto ao "momentum" (WGC, 9/set).

Fawad Razaqzada, da StoneX, escreveu em 28 de setembro que o ouro ainda acumulava alta de 6,4% no 3º trimestre até 25 de setembro, apesar de uma queda de 4% em setembro. Na análise técnica dele, US$ 4.000 é um suporte importante (StoneX, 28/set). Essa é a visão dele, e não a endossamos como previsão. As oscilações desta semana já reduziram o ganho trimestral, e o número final do 3º trimestre depende do fechamento de hoje.

O que sabemos e o que estamos inferindo

Sabemos (dados publicados)

  • O PBoC informou compra de 20 t em agosto, levando as reservas a 2.387 t e estendendo a sequência para 22 meses.
  • As compras líquidas declaradas dos bancos centrais foram de 23 t em julho e cerca de 130 t no ano, contra cerca de 160 t um ano antes.
  • Rússia e Turquia são vendedoras líquidas em 2026.
  • O ouro caiu cerca de 9,4% no mês até 30 de setembro, na série do Yahoo Finance.

Inferido ou estimado

  • Que as compras reais dos bancos centrais estão bem acima das declaradas. Isso se baseia nas estimativas do Goldman e na estimativa de demanda não declarada do WGC.
  • Que os bancos centrais compraram na queda de setembro. Ainda não há dado oficial de setembro.
  • Que a demanda oficial limita a queda. É plausível ao longo de meses, mas não impediu a queda deste mês.

O que acompanhar

  • Sexta, 2/out: relatório de emprego dos EUA de setembro, às 8h30 ET / 9h30 UTC-3 (BLS). É um dado-chave para as apostas de alta de juros do Fed.
  • Por volta de quarta, 7/out: reservas do PBoC de setembro. A China costuma divulgar as reservas de fim de mês perto do dia 7, mas a data não está confirmada e pode mudar por causa do feriado do Dia Nacional. Será a primeira prova concreta de que a China comprou (ou não) durante a queda.
  • Quarta, 7/out: ata do FOMC da reunião de 15 e 16 de setembro, às 14h ET / 15h UTC-3 (Federal Reserve).
  • Início de outubro: divulgações do WGC sobre os fluxos de ETFs de setembro e as estatísticas de bancos centrais de agosto. As datas exatas ainda não foram confirmadas.
  • Quarta, 14/out: CPI dos EUA de setembro, às 8h30 ET / 9h30 UTC-3 (BLS).
  • 27 e 28/out: reunião do FOMC. A coletiva é às 14h30 ET / 15h30 UTC-3 de 28 de outubro (Federal Reserve).

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