Dólar na máxima em 18 meses: é ele que está derrubando o ouro?
O índice do dólar atingiu o maior nível desde abril de 2025 e o ouro devolveu os ganhos. Mas o pregão de terça mostra que as expectativas de juros do Fed, e não só a moeda, fazem a maior parte do estrago.
O índice do dólar americano subiu na segunda-feira ao maior nível desde abril de 2025, e o ouro, que chegou a ser negociado acima de US$ 4.200 a onça durante o pregão asiático, devolveu o ganho e um pouco mais. As manchetes repetem a mesma dupla: "ouro cai com dólar firme". É um atalho razoável, mas esconde a mecânica. A pergunta que vale responder antes do relatório de inflação dos EUA de hoje é esta: o dólar forte é mesmo o que está derrubando o ouro, e por que é o dólar, e não o ouro, que está ficando com o dinheiro de proteção enquanto a tensão no Golfo aumenta?
A resposta curta
Em parte. Um dólar mais forte reduz o preço do ouro em dólares por simples conversão cambial e por deixar o metal mais caro para quem ganha em euros, ienes ou rúpias. Mas os dados desta semana mostram que o dólar não é a história toda, e provavelmente nem a principal. As mesmas forças que sustentam o dólar, sobretudo a chance maior de mais uma alta de juros pelo Federal Reserve e os rendimentos mais altos dos Treasuries de curto prazo, também encarecem o custo de manter um metal que não paga juros. Na terça-feira o dólar recuou e o ouro, mesmo assim, fechou em queda, porque os rendimentos curtos continuaram subindo. O dólar é o sintoma visível; as expectativas de juros são a causa mais profunda.
O que aconteceu com o dólar, e por quê
Segundo uma reportagem da Reuters publicada pela Euronext (12 de outubro de 2026), o índice do dólar, que mede a moeda americana contra seis grandes moedas, subiu 0,37%, para 102,58, na segunda-feira, o maior nível desde abril de 2025. A Reuters associou o movimento à busca por proteção depois de ataques no Oriente Médio no fim de semana, incluindo a intensificação dos ataques dos houthis contra a Arábia Saudita e ataques a dois petroleiros.
A FXStreet (12 de outubro de 2026) acrescenta o canal do petróleo. O Brent voltou a superar US$ 100 depois que um cessar-fogo energético entre Rússia e Ucrânia não se sustentou, e passou de US$ 107 depois que a Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter incendiado um superpetroleiro no Estreito de Ormuz. A explicação da FXStreet é direta: Europa e Japão importam quase todo o petróleo que consomem e pagam em dólares, então um barril mais caro significa vender mais euros e ienes. Euro e iene representam 71% do índice do dólar, e a FXStreet estimou que responderam por cerca de três quartos da alta de segunda-feira.
Esse detalhe importa para o ouro. Neste choque específico, o dólar não é apenas um porto seguro passivo. É a moeda em que o próprio choque é faturado, e por isso os importadores de energia são compradores forçados dela.
Três formas pelas quais o dólar forte pesa sobre o ouro
1. Conversão
O ouro é negociado no mundo inteiro, mas o preço de referência é cotado em dólares. Se o preço do ouro em euros ficasse exatamente estável enquanto o euro perdesse 1% frente ao dólar, o preço em dólares teria de cair cerca de 1% só para manter as duas cotações coerentes. Parte do que parece "queda do ouro" é a régua de medição que ficou mais longa.
2. Demanda fora dos EUA
A maioria dos compradores de ouro físico não ganha em dólares. Quando o dólar se fortalece, a mesma onça custa mais em moeda local, o que tende a enfraquecer na margem a demanda por joias e barras. Esse efeito é mais lento que o primeiro e mais difícil de enxergar no dia a dia.
3. Uma causa em comum
Este é o que mais pesa agora. O dólar sobe em parte porque o mercado espera que o Fed continue apertando. O Kitco AM Report (12 de outubro de 2026) observou que a inflação persistente, os rendimentos elevados dos títulos e um dólar perto da máxima em 18 meses pesavam sobre o ouro, que havia recuado para cerca de US$ 4.156, queda de quase 1% no dia, depois de ser negociado brevemente acima de US$ 4.200. Juros básicos esperados mais altos tornam o caixa e os Treasuries curtos mais atraentes em relação ao ouro. Nesse caso, dólar e ouro não estão tanto empurrando um ao outro, e sim reagindo à mesma notícia.
O teste: terça-feira
Se o dólar sozinho definisse a direção do ouro, a terça-feira deveria ter sido um bom dia. E começou assim. O Kitco AM Report (13 de outubro de 2026) mostrava o ouro à vista perto de US$ 4.186,90, alta de 0,39%, com o índice do dólar recuando para cerca de 102,3 e o petróleo e os rendimentos dos Treasuries em queda.
No fechamento, o quadro se inverteu. O Kitco PM Report (13 de outubro de 2026) registrou o ouro à vista perto de US$ 4.160,80, queda de 0,24% na sessão, mesmo com o dólar mais fraco. O que mudou foi a ponta curta da curva de juros: o rendimento de 2 anos subiu acima de 4,81%, enquanto o de 10 anos recuou para perto de 5,22%. A Kitco informou que os operadores precificavam cerca de 19% de chance de alta em outubro e 88% de probabilidade de alta em dezembro. O Brent fechou a US$ 105,69.
O rendimento de 2 anos é a leitura mais limpa do mercado sobre o rumo do Fed nos próximos dois anos. Quando ele sobe num dia em que o dólar cai e o ouro ainda assim recua, é um sinal forte de que as expectativas de juros, e não a moeda, estão fazendo o trabalho pesado.
Por que o ouro está perdendo a disputa de porto seguro
O ouro costuma se beneficiar do medo geopolítico. Desta vez, ele disputa com um dólar que é ao mesmo tempo porto seguro e moeda de liquidação do petróleo cujo preço o conflito está empurrando para cima. Petróleo mais caro alimenta a inflação, que alimenta a expectativa de altas do Fed, que eleva os rendimentos. Cada elo dessa corrente joga contra um ativo que não rende juros.
O comentário de setembro do World Gold Council (publicado no início de outubro de 2026) descreveu o mesmo padrão numa janela mais longa: a disparada dos rendimentos dos Treasuries e do dólar, somada à redução de posições em futuros, ajudou a derrubar o ouro em 8,5% em setembro, para fechar a US$ 4.176 a onça. As posições líquidas de gestores em futuros caíram US$ 12 bilhões (84 toneladas). O dinheiro especulativo de giro rápido costuma seguir de perto o dólar e os juros, o que amplifica esses movimentos.
Para dar perspectiva, o preço do fim da tarde de terça, cerca de US$ 4.160,80, está aproximadamente 26% abaixo do recorde de US$ 5.597,23 registrado em 29 de janeiro de 2026, segundo a Forbes (13 de outubro de 2026). Outros provedores de dados apontam recordes ligeiramente diferentes.
O que sabemos vs. o que estamos inferindo
- Sabemos: O índice do dólar chegou a 102,58 em 12 de outubro, o maior nível desde abril de 2025 (Reuters). O Brent passou de US$ 107 naquele dia com as notícias de Ormuz (FXStreet). O ouro fechou 13 de outubro perto de US$ 4.160,80 apesar do dólar mais fraco, com o rendimento de 2 anos acima de 4,81% (Kitco). O mercado futuro precificava cerca de 88% de chance de alta do Fed em dezembro (Kitco).
- Sabemos: O World Gold Council atribui a queda de 8,5% de setembro a rendimentos mais altos, dólar mais forte e liquidação de futuros.
- Inferimos: Que as expectativas sobre o Fed, e não o dólar em si, são o fator dominante agora. A divergência de terça apoia essa leitura, mas uma sessão não é prova.
- Inferimos: Que o efeito do faturamento do petróleo em dólares vai perder força se o Brent cair. O mecanismo da FXStreet sugere isso, mas a relação pode se romper se um cessar-fogo também reduzir as expectativas de inflação e as chances de alta de juros ao mesmo tempo.
- Em aberto: Se a alta do dólar vai durar. Joel Kruger, do LMAX Group, disse à Reuters que vê pouco espaço para novos ganhos do dólar, citando dados mais fracos e altas de juros já precificadas. É a visão de um analista.
O que observar a seguir
- Hoje, 14 de outubro, 8h30 (horário de Nova York) — CPI de setembro. Economistas consultados pela Dow Jones esperam alta de 0,6% no mês e de 3,6% em 12 meses no índice cheio, com o núcleo em 0,2% e 2,5%, segundo a CNBC (13 de outubro de 2026). Um núcleo acima do esperado pesa mais nas chances de alta de juros do que um índice cheio puxado por energia.
- O rendimento de 2 anos versus o índice do dólar. Se divergirem de novo, observe qual dos dois o ouro acompanha. Na terça, a resposta foi o de 2 anos.
- 15 de outubro — PPI e vendas no varejo, e falas do Fed na sexta-feira, 16 de outubro, ambos apontados pela Kitco como os próximos testes da semana.
- Brent na faixa de US$ 105–107. Uma queda sustentada enfraqueceria o apoio que o faturamento do petróleo dá ao dólar.
- Índice do dólar em 102,58. Um rompimento claro acima da máxima de segunda ampliaria a pressão de conversão sobre o ouro cotado em dólares.
- A decisão de juros do Fed em 28 de outubro, quando as chances de alta em dezembro serão confrontadas com a orientação oficial.
Informação educativa apenas — não é recomendação financeira.