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IA e tecnologia · 30 de setembro de 2026 · 8 min de leitura

Primeira decisão de apelação sobre treino de IA: o que o caso ROSS significa

O Terceiro Circuito rejeitou o fair use no treinamento de IA da ROSS Intelligence. Não é um veredito sobre IA generativa, mas três pontos do raciocínio importam para todo desenvolvedor.

Em 29 de setembro de 2026, o Tribunal de Apelações do Terceiro Circuito dos Estados Unidos se tornou o primeiro tribunal federal de apelação a decidir se copiar material protegido por direitos autorais para treinar um sistema de IA é uso legítimo (fair use). A resposta, em Thomson Reuters v. ROSS Intelligence, foi não. As manchetes trataram a decisão como um golpe no treinamento de IA. Por isso, a pergunta que desenvolvedores, editoras e usuários de IA estão fazendo agora é simples: essa decisão significa que treinar IA com obras protegidas é ilegal?

A resposta curta

Não, pelo menos não como regra geral. O tribunal decidiu um caso restrito: uma ferramenta de busca jurídica não generativa, criada para substituir o Westlaw e treinada com material derivado dos próprios resumos editoriais do Westlaw, quando as decisões judiciais originais eram de uso livre. Os juízes fizeram questão de dizer que modelos generativos podem apresentar um quadro diferente. O que a decisão faz é reforçar três pontos de pressão que todo desenvolvedor de IA deve levar a sério: se o produto concorre com a fonte, se a cópia era realmente necessária e se existe um mercado de licenciamento de dados de treinamento.

O que o tribunal realmente decidiu

A decisão publicada (nº 25-2153, sustentação oral em 11 de junho de 2026, protocolada em 29 de setembro de 2026) foi redigida pela juíza Tamika Montgomery-Reeves, em um colegiado que também incluiu os juízes Restrepo e Bove. Ela confirmou o julgamento sumário de fevereiro de 2025 do juiz Stephanos Bibas sobre duas questões certificadas: se os headnotes (ementas editoriais) do Westlaw são originais e se o uso que a ROSS fez deles foi fair use. O julgamento foi registrado primeiro com a decisão sob sigilo; o sigilo foi noticiado em 29 de setembro e o texto se tornou público em 30 de setembro.

Os fatos que pesaram

A ROSS queria um mecanismo de busca com IA que respondesse a perguntas jurídicas em linguagem simples com trechos relevantes de decisões judiciais. Para treiná-lo, contratou a LegalEase Solutions, que redigiu cerca de 25 mil memorandos de treinamento. Segundo a decisão, os redatores "usaram milhares de headnotes do Westlaw para criar as perguntas jurídicas dos memorandos". A constatação de infração abrange 2.243 headnotes. O ponto central: o tribunal destacou que "a IA da ROSS não era uma IA generativa, ou seja, não criaria nenhuma expressão nova; apenas retornaria trechos de texto de decisões judiciais preexistentes".

Os headnotes são protegidos

Na primeira questão, o tribunal concluiu que "todos os 2.243 headnotes criados de forma independente em discussão nesta apelação têm 'alguma centelha criativa'", porque os editores "tomaram decisões criativas sobre quais pontos de direito eram importantes o suficiente para entrar em um headnote e como redigir esses pontos". Também rejeitou o argumento de que ideia e expressão se fundem, observando que "há muitas maneiras de expressar pontos de direito extraídos de decisões judiciais".

Como ficaram os quatro fatores do fair use

  • Finalidade e natureza do uso: contra a ROSS. "Dado que o uso da ROSS foi altamente comercial e minimamente transformador, concluímos que o primeiro fator pesa contra o fair use." O tribunal foi direto: "A ROSS pretendia substituir o Westlaw."
  • Natureza da obra: a favor da ROSS. Os headnotes são em grande parte factuais, e o tribunal concluiu: "Este fator, portanto, favorece o fair use." Observou, porém, que esse fator raramente decide o resultado.
  • Quantidade utilizada: contra a ROSS. O tribunal apontou que "a ROSS tinha acesso às decisões judiciais subjacentes e poderia copiá-las livremente", mas escolheu os headnotes porque eram uma forma "fácil" de criar os memorandos de treinamento.
  • Efeito no mercado: contra a ROSS. O tribunal constatou que "o mercado de licenciamento de headnotes como texto para treinar IA está se desenvolvendo rapidamente" e concluiu: "Assim, o quarto fator pesa contra o fair use."

Conclusão: "Avaliando esses fatores em conjunto, e à luz das finalidades do direito autoral, decidimos que o uso da ROSS não foi legítimo."

Por que isso não é um veredito sobre ChatGPT, Claude ou Gemini

A frase mais importante para o setor de IA como um todo é a que diferencia os modelos generativos. O tribunal registrou que o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) havia apresentado uma manifestação de interesse no processo consolidado de direitos autorais contra a OpenAI em Nova York, apoiando-se em Bartz v. Anthropic para argumentar que treinar um grande modelo de linguagem é transformador. A resposta do colegiado: "Diferentemente dos modelos de IA em Bartz e In re: OpenAI, a plataforma de IA da ROSS não consegue gerar expressão original, e as provas aqui apontam para a conclusão oposta sobre o caráter transformador."

Isso mantém intacto o mapa atual das decisões de primeira instância. Em junho de 2025, o juiz William Alsup decidiu em Bartz v. Anthropic que treinar com livros adquiridos legalmente era fair use "extremamente transformador", mas negou essa proteção a milhões de cópias piratas. Em 1º de setembro de 2026, o DOJ disse ao Distrito Sul de Nova York que o treinamento com material protegido, "por si só", não viola a lei de direitos autorais, embora a manifestação não tenha tratado de bases de dados piratas e tenha analisado os resultados gerados separadamente.

Analistas traçam a mesma linha. O LawNext observou que a ROSS, hoje encerrada, copiou o material antes da popularização da IA generativa e construiu um produto concorrente de pesquisa, não um sistema generativo. O Copyright Lately a chamou de primeira decisão federal de apelação sobre fair use no treinamento de IA, com implicações para os casos pendentes envolvendo IA generativa.

Onde a decisão ainda atinge a IA generativa

Ser restrita não é o mesmo que ser irrelevante. Três partes do raciocínio vão muito além da ROSS:

  1. Substituição pesa mais que a técnica. O tribunal não aceitou "foi só uma etapa intermediária de treinamento" como escudo. O que importou foi que o produto final concorria no mesmo mercado da fonte. Uma ferramenta generativa criada para ocupar o lugar do produto de uma editora específica pode enfrentar a mesma lógica.
  2. Mercados de licenciamento contam. A constatação de que um mercado de licenciamento de texto "para treinar IA está se desenvolvendo rapidamente" importa para todo setor em que acordos de licenciamento de dados para IA estão sendo assinados. Quanto mais acordos existirem, mais fácil será para os titulares alegar perda de receita de licenciamento no quarto fator.
  3. Conveniência não é necessidade. Como as decisões judiciais em domínio público estavam disponíveis gratuitamente, copiar a camada editorial paga pareceu um atalho, não uma exigência. Quem treina modelos com versões premium e curadas de material que já é livre deve esperar a mesma pergunta.

O que sabemos vs. o que estamos inferindo

Sabido (pela decisão e pelas fontes citadas):

  • O Terceiro Circuito confirmou que 2.243 headnotes do Westlaw são protegidos por direito autoral e que o uso da ROSS não foi fair use.
  • Três dos quatro fatores foram contra a ROSS; o fator da natureza da obra a favoreceu.
  • A decisão diferenciou expressamente os modelos generativos de Bartz e do processo contra a OpenAI.
  • O DOJ argumentou em Nova York que o treinamento de LLMs é transformador, sem tratar de dados piratas.

Inferido (nossa análise, não o que foi decidido):

  • É provável que titulares de direitos citem o raciocínio sobre substituição de mercado e mercado de licenciamento contra empresas de IA generativa, sobretudo quando os resultados concorrem diretamente com a fonte.
  • A decisão vincula apenas os tribunais do Terceiro Circuito (Delaware, Nova Jersey, Pensilvânia e Ilhas Virgens Americanas); outros circuitos podem raciocinar de forma diferente.
  • O peso dado aos mercados de licenciamento tende a crescer à medida que mais acordos de dados para IA se tornem públicos.

O que acompanhar a seguir

  • Novos recursos no caso ROSS: se a ROSS pedirá novo julgamento pelo plenário do Terceiro Circuito ou revisão pela Suprema Corte. Como se tratou de uma apelação interlocutória, o restante do processo volta ao Distrito de Delaware.
  • In re: OpenAI (Distrito Sul de Nova York): como o tribunal vai tratar a manifestação do DOJ de 1º de setembro de 2026 e se considerará a decisão da ROSS persuasiva.
  • Outros circuitos: a primeira decisão de apelação sobre um modelo generativo será o verdadeiro teste; até lá, ROSS é o único precedente de apelação.
  • Acordos de licenciamento: cada novo acordo de licenciamento de conteúdo para IA reforça o argumento do quarto fator que este tribunal aceitou.

Para quem desenvolve ou contrata ferramentas de IA, a lição prática é clara: saiba de onde vieram seus dados de treinamento, se existe mercado de licenciamento para eles e se o seu produto substitui a fonte.

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